Vossa Excelência, acabou. Peça para sair!

A grande expectativa que existe na sociedade para colocar o Brasil numa condição mínima de sanidade, bem-estar, união e governabilidade mínimas não será alcançada na sua presença

segunda-feira, 04 de maio 2020

Download PDF
Jair Bolsonaro. Crédito da foto: Carolina Antunes/Presiência,

Presidente Jair Bolsonaro, vossa Excelência tem demonstrado uma condição de limitação extrema para exercer suas responsabilidades básicas na função que ocupa, desde seu primeiro dia. Sua postura agride os brasileiros gratuitamente, alimentando uma dolorosa sina, que obriga a todos a tomar conhecimento diário de grosserias baratas e atitudes estapafúrdias. Seu despreparo demonstra a inexistência de uma conduta compatível com o cargo que ocupa.

Vossa Excelência segue orientações sem fundamentos técnicos e científicos em grande parte de suas atitudes. Adota o já famoso “terraplanismo” como base de suas decisões. Coloca o país em situações de risco por apoiar criminosamente a destruição da natureza, não reconhece a diversidade social e dá espaço amplo e concede vantagens indevidas a grupos setoriais que, justamente, são os que menos precisam do seu amparo.

Vossa Excelência já goza de desprezo da maioria das lideranças mundiais e vem sendo infantilmente enganado por outras. Suas atitudes irresponsáveis destruíram a boa imagem da diplomacia brasileira, construída duramente ao longo de décadas e, até há pouco, muito respeitada. Coloca em risco investimentos e aportes de recursos diretamente voltados à melhoria da qualidade de vida de nossa população, abrindo mão, sem nenhuma justificativa, de apoios de enorme importância.

Vossa Excelência tem um comportamento agressivo com qualquer um que destoe de suas afirmações. O seu inimigo é todo aquele que não concorda com os mantras impositivos e mal respaldados que temos sido obrigados a vivenciar. Mesmo que a intenção seja dar um rumo correto às ineficiências institucionais certamente existentes em diferentes áreas e atividades públicas, a acolhida para direcionamentos mais consistentes não faz parte de sua conduta em nenhum momento.

Vossa Excelência tem arroubos de ódio contra a imprensa. Mas é o pior exemplo da prática de difundir notícias falsas, inclusive para respaldar sua eleição em 2018. Sugere estar sendo perseguido sistematicamente, mesmo que as pautas em discussão representem uma tentativa de esclarecer as razões de atitudes ilógicas e contrárias ao interesse público. Contrariar suas opiniões virou sinônimo de ser comunista e querer destruir o Brasil.

Vossa Excelência já perdeu a autoridade demandada para a sua função. Autoridade conquistada em eleição democrática, mas mal alimentada a partir daí. Cabe evidenciar que ganhar as eleições é um passo no exercício de funções públicas de tão alta responsabilidade. Outra coisa é manter-se moral e politicamente apto para dar continuidade a suas atribuições. Seus próprios pares já não confiam em sua conduta errática e seu isolamento político já é um fato consumado. E que tende a piorar a cada momento.

Vossa Excelência não pode ser acusado de ter criado uma pandemia, que assola o mundo neste momento. Mas para um enfrentamento que esteja à altura das crises sanitária, econômica, politica e ambiental que vivemos, seria necessário que a condução de suas funções fosse diametralmente oposta à forma como se portou até aqui, mudando radicalmente de uma hora para outra, qualificando-se para liderar um processo de união de todos em busca de soluções racionais e sustentadas pelo conhecimento e pela ciência. Vossa Excelência demitiu os que tentavam dar algum sentido técnico e racional ao governo.

Vossa Excelência, num momento tão crítico e doloroso para toda a sociedade, prefere gastar suas energias incitando de maneira irresponsável a população para atitudes antidemocráticas.

Por todos esses motivos acima, e por tantas e tantas outras aberrações que não caberiam em espaço tão limitado de texto, não abriga nenhuma condição de representar o Brasil. A grande expectativa que existe na sociedade para colocar o Brasil numa condição mínima de sanidade, bem-estar, união e governabilidade mínimas não será alcançada na sua presença.

Texto escrito coletivamente por:

Clóvis Borges é diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

João de Deus Medeiros é ex-diretor dos Departamentos de Áreas Protegidas e de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e coordenador geral da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA).

Wigold Bertoldo Schaffer é administrador e especialista em Políticas Públicas Ambientais. Foi coordenador do Núcleo Mata Atlântica do Ministério do Meio Ambiente entre 2003 e 2010 e fundador da Apremavi (Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida) em 1987.