O trágico destino da Ilha do Mel

A região encontra-se na iminência de ser severamente impactada pela construção de novos empreendimentos portuários e de uma gama de obras acessórias em Pontal do Paraná

sexta-feira, 07 de outubro 2016

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Farol das Conchas - Ilha do Mel - Paranaguá - PR
Farol das Conchas. Ilha do Mel – Paranaguá – PR_Zig Koch

A Ilha do Mel, em Paranaguá, é a segunda área natural mais visitada no Paraná, atrás apenas do Parque Nacional do Iguaçu. Não por coincidência, a ilha também é protegida por Unidades de Conservação (UCs), com cerca de 12% da área integrando um parque estadual e o restante, uma estação ecológica. Somente as vilas de moradores, que contam com ampla infraestrutura para recepção de turistas, não são abrangidas pelas UCs.

Fruto do pouco potencial agrícola, a ilha sempre manteve suas características naturais com poucas intervenções. A região abriga uma riquíssima biodiversidade em seus cordões litorâneos, matas de planície e de terras baixas, além dos mangues, restingas e cavidades naturais que protegem inúmeras espécies residentes e migratórias.

Ao longo dos tempos, brasileiros e paranaenses ajudaram a protegê-la, inicialmente com motivação de segurança do território, com a construção da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, no fim da década de 1760, passando pelo tombamento pelo Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná, em 1953. Em 1982, foi criada a Estação Ecológica da Ilha do Mel e, em 2002, instituído o parque estadual de mesmo nome. Os Planos de Manejo das duas UCs, que subsidiam o uso, proteção e manejo das áreas, foram atualizados em 2013, alinhados à legislação nacional vigente.

As economias de Paranaguá e de Pontal do Paraná beneficiam-se dos recursos deixados pelos turistas, dos impostos gerados pelos serviços ofertados e pela Lei do ICMS Ecológico do Paraná. Outro benefício é a salvaguarda de áreas de vida, alimentação e reprodução das espécies marinhas, fundamentais também para a economia e subsistência das populações locais.

Esse contexto de conservação proporciona o especial interesse dos turistas, que nos períodos mais intensos do verão chegam ao limite de 5 mil pessoas por dia, além de subsidiar toda a cadeia da pesca local, proporcionando à região um desenvolvimento efetivamente sustentável, ao contrário da maioria das áreas interioranas do estado do Paraná, onde os ecossistemas naturais foram suprimidos por atividades agropecuárias e industriais.

Se essa conjuntura não fosse suficiente para justificar a conservação de remanescentes naturais como a Ilha do Mel e entorno – não apenas as protegendo, mas também aportando recursos para tais fins –, por simples compensação do que está comprometido nos planaltos, na contramão, a região encontra-se na iminência de ser severamente impactada pela construção de novos empreendimentos portuários e de uma gama de obras acessórias em Pontal do Paraná.

A implantação desses empreendimentos ainda não ocorreu pela resistência de pesquisadores e da sociedade civil, mas certamente deverá ser consumada em breve, especialmente neste momento de novo governo federal. Outra dificuldade refere-se ao fato de que empresários de algumas das maiores empreiteiras do Brasil e políticos que atuaram para viabilizar obras semelhantes em outras regiões estão privados de liberdade ou em vias de igual caminho.

Resta saber se, ao fim desse processo, haverá interesse pela visitação à Ilha do Mel, recursos pesqueiros à população e se os poucos fragmentos de Mata Atlântica da região resistirão à pressão da operação dos novos empreendimentos. A reação do povo paranaense para a preservação da Ilha do Mel é uma esperança que já não mais mantenho. Espero estar enganado!

Emerson Antonio de Oliveira é engenheiro agrônomo e coordenador do Observatório de Conservação Costeira do Paraná.

 Acesse o artigo na Gazeta do Povo.