O elo entre o consumo de carne animal e pandemias

O elo entre consumo de animais e saúde global precisa ser definitivamente levado a sério. Regulamentações amplas e a redução no consumo de carne poderiam aliviar esses problemas. Os países deveriam também aprender suas lições e focar nos determinantes sociais para prevenir a repetição dos mesmos erros

quinta-feira, 26 de março 2020

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HIV, Influenza, Ebola, Gripe Espanhola e Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), têm algo em comum. Todas essas pandemias tiveram suas origens em animais. Essa característica também é compartilhada pela nova epidemia de coronavírus iniciada em Wuhan, China. Dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o problema como pandemia. Segundo o órgão, o número de pacientes infectados, de mortes e de países atingidos deve aumentar. Apesar disso, os diretores ressaltam que a declaração não muda as orientações e os governos devem manter o foco na contenção da circulação do vírus.

Essas doenças são “zoonóticas”, o que significa que a disseminação ocorre de uma espécie para outra. Essa definição não se restringe à transmissão de doenças de animais para seres humanos. Elas podem ser transmitidas de um tipo de animal para outro também. E para muitas doenças zoonóticas, a transmissão ocorre entre múltiplas espécies. 

Por exemplo, acredita-se que o vírus Ebola originou-se em morcegos que depois vieram a infectar primatas, cães, porcos e humanos. Existem outras doenças zoonóticas não infecciosas ligadas ao consumo de animais, como a doença da “vaca louca”. No entanto, as que causam epidemias e pandemias são as doenças infecciosas e, uma vez em seres humanos, são transmitidas de pessoa para pessoa, sem necessidade de contato com o animal hospedeiro original.

Acredita-se que quase todos os surtos de doenças zoonóticas em humanos sejam originários do consumo de carne de animais selvagens. A origem do HIV foi o consumo de carne de Chimpanzés com o vírus espumoso símio. O Ebola também se originou de consumo de carne de animais selvagens. A carne de caça é uma fonte de alimento para pessoas de certas culturas, especialmente, para aquelas afetadas pela pobreza. A questão é complexa, pois, apesar de terem sido informadas sobre os riscos do consumo de carne de animais selvagens, algumas pessoas podem não ter escolha diante da ausência de políticas públicas que garantam a sobrevivência desses indivíduos. Para os governantes, é importante trabalhar o sistema alimentar e reduzir a pobreza para garantir que todas as pessoas possam ter acesso a outros alimentos.

Em países como a China, a falta de regulamentação para as “feiras livres” – mercados onde se vendem carne, verduras e até mesmo animais vivos – criou no passado o surto de Sars, e agora também o surto de coronavírus, em Wuhan. Outra contribuição é cultural. Comer carne de animais selvagens é considerado símbolo de riqueza porque essas espécies são raras e a carne é mais cara. Há também desinformação e crenças, como as baseadas em ensinamentos da medicina tradicional chinesa, para as quais não há base de evidência científica, de que o consumo de alguns animais selvagens gere benefícios para a saúde. Os mercados são também fonte importante de vegetais frescos e, muitas vezes, oferecem produtos mais baratos do que os oferecidos em supermercados. O mercado onde se originou o novo coronavírus é um exemplo.

A partir de agora, o comércio de animais silvestres foi proibido na China devido ao surto de coronavírus, o que representa uma vitória não apenas da perspectiva da saúde, mas também do ponto de vista da proteção e preservação de espécies animais, já que não havia regulamentação ao tratamento e a origem dos animais vendidos.

Outros países não estão livres do risco. A verdade inconveniente é que as doenças zoonóticas não vêm apenas de carne de caça e de animais silvestres. Anteriormente, a gripe aviária e a gripe suína também causaram surtos, originadas de cepas do vírus comum de gripe Influenza. Em 1917, a gripe espanhola, uma doença originada em pássaros, infectou 500 milhões de pessoas ao redor do mundo e matou 5% da população mundial da época. A criação de animais para alimento é um fator contribuinte na propagação de doenças desse tipo, já que a infecção pode ocorrer por contato ou consumo da carne.

Além disso, mais da metade dos antibióticos do mundo são utilizados em animais de criação, o que é uma enorme ameaça à saúde global com o provável desenvolvimento eventual de uma superbactéria, resistente a todos os tratamentos com antibióticos. Isso pode levar a graves e difíceis surtos no futuro.

A criação de animais também é um dos principais contribuintes para o aquecimento global. Isso contribui para as doenças, já que os mosquitos transmissores agora podem viver mais longe da linha do Equador e espalhar doenças. Além disso, vírus de outras épocas que estão congelados no gelo do ártico podem retornar e causar novas pandemias, o que também representa séria ameaça global à saúde.

O elo entre consumo de animais e saúde global precisa ser definitivamente levado a sério. Regulamentações amplas e a redução no consumo de carne poderiam aliviar esses problemas. Os países deveriam também aprender suas lições e focar nos determinantes sociais para prevenir a repetição dos mesmos erros.

Finalmente, em um tom um pouco diferente, quero lembrar as pessoas de não serem preconceituosas diante de pessoas de países onde ocorrem surtos de doenças. Durante o Ebola, lembro de ver visto muito conteúdo racista nas redes contra pessoas negras. Durante a pandemia de HIV, a culpa foi colocada na comunidade gay. Atualmente, o ódio se dirige aos chineses. Quero lembrá-los de que surtos de doenças ocorrem baseados em problemas sistemáticos como pobreza, cultura, censura e falta de acesso à educação. E que ódio e racismo não são justificáveis. 

Agora é um bom momento para olharmos um para o outro e reconhecer que epidemias são algo que enfrentamos juntos. E que todos nós podemos fazer nossa parte tomando precauções. 

 

Artigo escrito por Xiuchen Xu, que atua como editor de sustentabilidade do Jornal Felix, no Reino Unido e é estudante do último ano de Biociências Médicas do Colégio Imperial de Londres (Imperial College London), uma das dez melhores universidades do mundo, com reputação de classe mundial em ciência, engenharia, negócios e medicina. 

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