A Mata dos Godoy: um tesouro de Londrina

Como um diamante, a Mata dos Godoy é hoje uma preciosidade de valor inestimável, que resguarda uma diversidade de espécies animais e vegetais extinta nas demais terras da região, preponderantemente destinadas à agricultura extensiva

quinta-feira, 30 de novembro 2017

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Trilha dos catetos, Mata dos Godoy_Foto: Agência de Notícias do Paraná.

Uma nova polêmica envolvendo Unidades de Conservação no estado do Paraná joga refletores na Mata dos Godoy, transformada em Parque Estadual no ano de 1989, sob a responsabilidade do Instituto Ambiental do Paraná (IAP). São 690 hectares de Floresta Estacional, uma vegetação pertencente ao bioma Mata Atlântica, localizada em Londrina, representando o maior remanescente de vegetação nativa de toda a região norte paranaense.

A simbologia dessa área é demarcada pela história de Olavo Godoy e de sua família. Ao contrário dos demais proprietários de toda essa grande região, o Sr. Godoy resolveu perpetuar uma fração de suas áreas na forma de um santuário, o que permitiu sua conservação. Ressalte-se que sua atitude não foi decorrente de imposição legal ou de qualquer outra motivação. Sua decisão, incomum à época, foi motivada, tão somente, pela percepção da importância em não destruir totalmente a exuberante natureza da região.

O presente que hoje os londrinenses e demais cidadãos que vivem nessa região receberam é de valor incomensurável. Surge da visão de um brasileiro que negou seguir a saga da destruição que impôs a dizimação praticamente completa das áreas naturais do norte do Paraná. O Parque Estadual da Mata dos Godoy é um marco de resistência, exemplo de civilidade e de um profundo sentimento de interesse público demonstrado na prática por um cidadão que resolveu desafiar o restante de seus pares, ainda numa época em que a destruição da natureza era símbolo de desenvolvimento e progresso.

Como um diamante, a Mata dos Godoy é hoje uma preciosidade de valor inestimável, que resguarda uma diversidade de espécies animais e vegetais extinta nas demais terras da região, preponderantemente destinadas à agricultura extensiva. É garantidora de oferta de sementes de espécies a serem utilizadas na restauração de áreas degradadas, de segurança hídrica, colabora com o equilíbrio do clima, aporta polinizadores para a agricultura, dentre muitos outros benefícios quantificáveis: os serviços ecossistêmicos.

Além de todas as razões que sustentam a importância da conservação da Mata dos Godoy e de seu entorno, está o potencial de incremento substancial do ecoturismo, com condições de geração de renda e empregos muitas vezes superior às atividades convencionais hoje desenvolvidas na região. Sem abrir mão de ações já estabelecidas, uma grande possibilidade de ordem econômica está resguardada para exploração, desde que as condições ambientais com a garantia de proteção plena dessa região, sejam efetivamente garantidas.

A presente discussão sobre uma invasão na Zona de Amortecimento do Parque Estadual para a implantação de um conjunto de atividades de impacto ambiental significativo corre à revelia do bom senso. Sintomática a presença de representante da Sociedade Rural local ao dar opinião sobre esses empreendimentos pretendidos. Demagogicamente, esse grupo insinua que “devemos equilibrar a conservação da natureza com o desenvolvimento econômico”. Com que moral sustentam que a última e única área mais representativa em toda a região norte do Paraná, tenha agora que se submeter, ainda assim, à imposição de projetos de desenvolvimento convencional e inconsequente?

Talvez os mais velhos, filhos e netos que sucedem os pioneiros que colonizaram, a ferro e fogo, o norte paranaense, ainda não tenham percebido que avançamos longe demais em nossa sina de destruição.

Vivemos um momento de fragilidade extrema pela pouca qualidade das gestões públicas, interessadas em atender aos interesses setoriais pontuais. Um punhado de políticos infelizes tentaram reduzir a Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana, iniciativa amparada pelo Governo do Estado do Paraná. Mas a falta de demonstração de interesse público dessas figuras públicas não foi suficiente para atingir o objetivo proposto. A reação de toda sociedade paranaense está impedindo-os de seguir livremente com suas iniciativas irresponsáveis.

Cabe agora seguir a mesma linha de adesão ampla já observada na região dos Campos Gerais, especialmente dos jovens paranaenses, em defesa do Parque Estadual da Mata dos Godoy e de sua Zona de Amortecimento. Temos que mudar nossa atitude em relação aos descalabros que continuam acontecendo em nosso país. A despeito de governos e de empreendedores privados que não têm qualquer compromisso com o bem comum, a sociedade está impelida a demonstrar sua capacidade de mobilização. Sabemos que há muito mais a se ganhar com o respeito ao pouco que sobrou de nosso patrimônio natural, nossas raízes e a garantia de nosso futuro. A destruição da natureza pode fazer parte de nosso passado, mas já passou em muito o tempo de, definitivamente, ficar só no passado.

Clóvis Borges, diretor da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), Mário Orsi, José Marcelo Torezan e Gustavo Góes são professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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