Lugar de aluno é na audiência pública, sim

No momento em que se propiciam condições para praticar a interdisciplinaridade, somos questionados por retirarmos os jovens das carteiras, da frente do quadro-negro, e colocá-los em pé, de cabeça erguida, encarando o mundo

segunda-feira, 27 de março 2017

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Gabriel Ramos de Lima_1
Alunos contestaram falta de espaço para acompanhar a audiência pública em Ponta Grossa e foram criticados por desejar participar das discussões_Gabriel Ramos de Lima

A interdisciplinaridade é um processo de construção de conhecimento por meio da integração de diferentes disciplinas. É recomendada pelo Ministério da Educação, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais, e por especialistas no assunto, que defendem o diálogo entre diferentes áreas como a melhor forma de se compreender fenômenos e conceitos, além de promover a articulação do ensino com a realidade de forma dinâmica.

A audiência pública de debate da Lei 527/2016 – que propõe a redução de 70% da Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana – foi uma verdadeira aula interdisciplinar. No evento, realizado dia 10 de março no Cine Teatro Ópera, em Ponta Grossa, foram discutidos inúmeros conceitos de diferentes áreas em um curto espaço de tempo.

Diante disso, espanta-me o discurso retrógrado feito na ocasião pelo deputado estadual Pedro Lupion ao questionar, em uma entrevista à imprensa, a presença de alunos na audiência, inclusive na parte externa do local, devido à superlotação do espaço. Os estudantes, acompanhados pelos professores, protestaram durante toda a manhã, segurando cartazes e pedindo que a audiência fosse transferida para um local maior, para que pudessem participar. Indiferente de serem contra ou a favor do projeto, desejavam participar do momento, que deveria ser um exercício de democracia. Segundo divulgaram diversos veículos de comunicação, a Secretaria de Educação foi notificada sobre a participação dos estudantes no evento.

Os professores, que enxergaram na audiência pública uma forma de promover a educação de forma interdisciplinar, foram criticados pela atitude inovadora. Cumpriam da forma mais responsável a missão de articular o ensino com a sociedade: levaram seus alunos para o debate de um projeto de lei que afeta milhares de pessoas que vivem em 12 municípios do Paraná.

Para se ter ideia do vasto material que foi apresentado no evento, do ponto de vista das Ciências Naturais, falou-se sobre a importância da biodiversidade dos Campos Gerais e todas as consequências envolvidas em sua supressão. Citou-se também o imenso patrimônio cultural da região, inclusive as pinturas rupestres preservadas em abrigos-sob-rocha, que serviriam de conteúdo para aulas de História. No contexto da Geografia, a peculiaridade das formações rochosas, que as tornam únicas no mundo. No âmbito da Matemática, foram apresentados os novos limites propostos para a APA da Escarpa, que poderiam ser utilizados em cálculos para demonstrar que aproximadamente dois terços da área atualmente preservada serão extintos para aumentar a capacidade produtiva da região. Os professores de Língua Portuguesa também teriam subsídios para aulas de figuras de linguagem, pois foi possível presenciar o uso de hipérboles, eufemismos e ironias em alguns discursos.

Como docente de um curso de Licenciatura, busco promover diariamente a formação de professores que atuem de modo interdisciplinar. Comungo da ideia de que o conhecimento não é adquirido somente através de conceitos teóricos. Pelo contrário: é construído a partir da observação e interação com o mundo, com os seres de todos os tipos que nele habitam e também com os fenômenos que nele ocorrem.

Parece-me que neste momento, além do retrocesso ambiental que é a proposição do projeto de lei, também retrocedemos no campo do ensino, ao ignorar que a prática escolar deve estabelecer conexões entre os conteúdos e a realidade.

Tanto falamos em temas como aulas dinâmicas, educação em ambientes não formais, desenvolvimento da consciência crítica dos nossos alunos para atuarem como cidadãos responsáveis. Mas nosso discurso não consegue se tornar real, porque, no momento em que se propiciam condições para praticar a interdisciplinaridade, somos questionados por tirarmos os jovens das carteiras, da frente do quadro-negro, e colocá-los em pé, de cabeça erguida, encarando o mundo.

 

Lia Maris Orth Ritter Antiqueira é bióloga, docente da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) de Ponta Grossa, líder do Grupo de Pesquisa em Conservação da Natureza e Educação Ambiental (CONEA) e membro do Grupo de Pesquisa e Estudos Interdisciplinares Tecnologia e Sociedade (GPEI).

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