Lições da chuva ácida

Para não perdermos a grande sensibilização, resolvemos aqui complementar o alerta da Defesa Civil e fazer alguns esclarecimentos importantes

segunda-feira, 06 de novembro 2017

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Maicon J. Gomes_Gazeta do Povo

Cuidado: não tome banho de chuva, pois você pode ter problemas de pele, e seu carro pode ter a pintura e vidros manchados. O contato com a água pode provocar irritações, sobretudo em crianças, que são mais sensíveis ao dióxido de carbono. Quem disse isso, no fim de setembro, foi a Defesa Civil do Paraná em um comunicado de alerta de chuva ácida à população.

A chuva ácida é atribuída, primeiramente, à longa estiagem; tivemos um dos invernos mais secos já registrados, sendo que o mês de julho foi o terceiro mais seco em 56 anos no Sul do Brasil, segundo o Climatempo. O segundo fator causador da chuva ácida está relacionado ao acúmulo de elementos químicos na atmosfera, provenientes dos combustíveis fósseis e outros fatores, como as queimadas recordes que assolaram todo o Brasil.

O comunicado, infelizmente, era curto e pouco instrutivo. A chuva ácida veio e foi, mas, para não perdermos a grande sensibilização, resolvemos aqui complementar o alerta da Defesa Civil e esclarecer que:

1. Nossa atmosfera é finita e, portanto, suporta uma quantidade limitada de dejetos. Não existe um vaso sanitário celeste. Aquilo que você joga no ar pode cair na sua cabeça.

2. Diferentemente do que se propaga, agro não é tudo. Já a água e o ar sim, pois são eles que possibilitam não apenas a existência do agronegócio, mas a própria vida na Terra.

3. A umidade do ar é um dos indicativos da qualidade do fluido mais importante para os seres humanos. Portanto, não seria má ideia aprender mais sobre ela nas nossas escolas, como sua influência nas doenças respiratórias, por exemplo.

4. Queimadas são práticas absurdas nos dias de hoje, já que a concentração de CO2 bateu o recorde dos últimos 600 mil anos, pelo menos. Conforme a Nasa e o Painel Intercontinental de Mudanças Climáticas (IPCC) comprovam, não estamos em condições de jogar ainda mais carbono no ar.

5. Queimadas deveriam ser totalmente proibidas, ainda que alguns argumentem a seu favor. Dada a incompetência estatal na gestão dos recursos naturais, é ridículo falar em “fogo controlado”. Somente em setembro deste ano ocorreram 95 mil queimadas no Brasil. Um recorde histórico.

6. Se você não acredita nas mudanças climáticas, está quase sozinho. Apenas Donald Trump e a Síria não são signatários do acordo climático de Paris – a Nicarágua acaba de assinar o acordo, depois da temporada de furacões no Caribe. Sugerimos que você leia mais sobre o assunto antes de se unir aos ditos negacionistas climáticos.

7. Você pode ter gostado do calor de 30 graus em vez da geada, mas a natureza tem ciclos necessários ao equilíbrio da vida, e o calor tende a aumentar. É o que os números mostram e a maioria da comunidade científica mundial vem constatando.

8. Aumentos da temperatura no Brasil colocam em xeque o futuro de agronegócios como o do café. De acordo com o Financial Times, sua produção pode ter uma queda de 7% devido ao aumento projetado de 1,2 grau na temperatura.

Embora seja possível evitar o contato direto com a chuva ácida, quando ela vem infelizmente acabamos atingidos em função da acidificação do solo, dos rios, dos lençóis freáticos e dos oceanos decorrente deste fenômeno. Isso foi constatado semanas atrás, quando milhares de peixes morreram no Rio Pirapó, em Maringá, no noroeste do Paraná. A chuva ácida, cujo pH situa-se entre 4 e 5, foi apontada pelo órgão ambiental como a única causa possível, já que não há outros poluentes ali.

Giem Guimarães é empresário, acionista, membro do conselho do Grupo Positivo e diretor-executivo do Observatório de Justiça e Conservação (OJC).

Acesse este artigo no site da Gazeta do Povo.