Havan de Matinhos: uma questão de valores

Se conseguirem fazer o que pretendem, que deixem que a estátua, que já representa uma visão míope do que é bonito, ostentar uma grande motosserra. E, assim, mostrem a todos, com precisão, que valores alimentam os atores que são parte dessa iniciativa

quinta-feira, 26 de julho 2018

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Quem percorreu o litoral do Paraná nos últimos anos, deve ter percebido a expansão urbana de algumas cidades como Guaratuba, Matinhos, Paranaguá, Pontal do Paraná e até Morretes. Especificamente no que se refere às áreas de maior concentração populacional, um contínuo movimento de supressão de vegetação nativa foi imposto, como ou sem amparo legal. Invasões, acertos políticos e licenciamentos duvidosos fazem parte de um jogo paciente com o qual áreas naturais do entorno dessas cidades vão dando espaço, sem exceções, para a urbanização descontrolada.

O caso de Matinhos é um exemplo típico. Seguidas gestões públicas, desde os anos 1980, protagonizaram uma desvairada construção de prédios na orla marítima, transformando drasticamente a faixa de praia entre Caiobá e Matinhos.  Ao mesmo tempo, as áreas menos valorizadas foram sendo exploradas para atração de moradores, numa expansão que praticamente estabelece como limite a morraria existente, já a grande distância da linha do mar.

São frequentes desmatamentos de Floresta de Restinga exuberante que dão espaço a uma grande concentração urbana. Tal contingente talvez propicie uma condição menos dependente de temporadas, mas é duvidoso que ofereça oportunidades de trabalho para tanta gente. Mais impostos são cobrados na forma de IPTU, o que pode, pelo menos em parte, explicar a política de avanços de crescimento observada. Mas é indubitável que o preço do crescimento sem planejamento tem consequências.

O tratamento de esgoto não acompanhou a sanha de aumento populacional e de estruturas prediais implantadas. Muito menos as condições de segurança e para o atendimento de serviços públicos em geral. Quanto mais gente, mais demandas sociais existirão. O que gera dúvidas em relação à estratégia de crescimento a qualquer custo em Matinhos, e nas demais cidades costeiras do Paraná. Loteamentos e mais loteamentos buscando atrair mais e mais pessoas não representam uma forma de melhorar as cidades. No entanto, mantêm o negócio imobiliário de pé, movimentado através de uma especulação contínua, de uso de áreas naturais.

Infelizmente, mesmo nos dias de hoje, a compreensão do poder público local sobre os limites que devem existir para decisões que envolvem a ampliação de empreendimentos numa cidade turística, não é adequada. Uma polêmica sobre o sacrifício de um último remanescente urbano de vegetação nativa, tornado parque pela própria gestão municipal, demonstra que os valores de algumas décadas atrás continuam os mesmos.

Se uma Loja da Havan para Matinhos precisa ser locada, justamente, num parque municipal – que poderia estar sendo desfrutado pela comunidade local como uma área de lazer e que minimizando a paisagem pouco atrativa do mar de casas em que essa área se transformou – realmente a não há qualquer  expectativa de que um dia tenhamos uma condição diferenciada para o turismo regional. Deixando de perder espaço e recursos para outros pontos do país com gestões mais inteligentes na busca de atratividade de turistas, bem estar à comunidade e desenvolvimento harmônico com o meio ambiente. Recentemente, o dono da Havan foi até Balneário Camboriú e, das areias da praia Central, fez um vídeo elogiando a quantidade de prédios à beira mar, dizendo que eles eram um “exemplo de como o mercado imobiliário pode crescer e gerar milhares e milhares de emprego”. Pelo visto, ele espera que, oportunamente, Matinhos e Caiobá virem  outras “Camboriús”, com todos os problemas estruturais que a cidade traz consigo?

Se um dia conseguirem fazer o que pretendem, embora a judicialização do caso esteja fortemente amparada, um detalhe deve ser levado em consideração. Que deixem que a estátua, que já representa uma visão míope do que é bonito, ostentar uma grande motosserra. E, assim, mostrar a todos com precisão que tipo de valores alimentam os atores que são parte dessa iniciativa.

 

Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) e conselheiro do Observatório de Justiça e Conservação (OJC).

 

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