Como seria o Brasil na gestão de um presidente “agro é tudo”

Nessa gestão, todas as regalias que incrementam a legislação do país estariam cada vez mais voltadas a dar lastro e segurança ao agronegócio

quarta-feira, 01 de novembro 2017

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Queimada em Piraquara, PR_Zig Koch

O discurso de posse do presidente “agro é tudo” expulsaria do país, de pronto, todos aqueles que estivessem contrários às premissas fundamentais do grupo setorial que comprou o Brasil a partir da produção de commodities a qualquer custo e que imprimiu um marketing truculento ao longo dos anos, convencendo os brasileiros de que o poder econômico pode tudo.

Sofreriam graves consequências os que ousassem contestar aqueles que “geram riquezas” e “carregam a economia do país”, independentemente de isso ser feito por práticas lícitas ou não. Se necessário, um grande muro seria erguido em nossas amplas fronteiras para impedir o ingresso de díspares radicais e contrários ao desenvolvimento.

Continuando o estabelecimento de suas novas diretrizes: por decreto, seria posto um ponto final à existência das áreas de conservação. Sejam públicas ou privadas, as “Unidades de Conservação”, vistas como “estorvos que impedem o desenvolvimento econômico do país e tiram a segurança jurídica do produtor rural”, seriam, literalmente, extintas. Com a decisão, ficaria aberta a perspectiva de que o território brasileiro pode tornar-se integralmente coberto por monoculturas, com a diversidade de produção que cada região possibilita. Biomas passam a não ser mais caracterizados como usualmente. No sistema proposto, novas regiões com culturas agrícolas ou cobertas por silvicultura seriam a base para o estabelecimento de uma nova divisão geográfica. O termo “biodiversidade” deixaria de ser praticado por evidente falta de necessidade e criar-se-ia uma nomenclatura única para identificar tão somente as espécies da “agro diversidade biológica” e suas múltiplas variantes geneticamente alteradas.

As instituições de pesquisa dedicariam seus esforços à adaptação de culturas às mudanças climáticas, possibilitando maior resiliência com sementes capazes de resistir aos efeitos das mudanças climáticas extremas e da perda da biodiversidade, preparando-se para eventuais situações de crise ambiental. As secas e enchentes seriam administradas não a partir de suas causas, mas de seus efeitos.

Não obstante, a recusa em admitir o fenômeno das mudanças climáticas como prática de ações antropogênicas aproximaria de maneira inédita a diplomática o Brasil de países como os Estados Unidos, juntamente com a prática do “criacionismo”, que passaria a ser obrigatória à formação básica de todas as escolas do país.

A aprovação de agrotóxicos para comercialização passaria apenas pelo Ministério da Agricultura, sem avaliações do Ministério da Saúde e do Meio Ambiente, o qual talvez sequer existiria. A venda de agrotóxicos teria aplicação mais ampla e variada. E eles seriam vendidos em supermercados em seções distintas dos alimentos e congêneres, apenas por uma questão ordenamento e facilidade. Campanhas publicitárias que estimulassem a prática de produção convencional baseada no uso de pesticidas como fórmula única e preponderante para alimentar a população mundial transformariam a opinião pública em apoiadora contundente da prática de envenenamento coletivo da população mundial.

As conhecidas Unidades da Federação seriam, então, extintas, passando a vigorar um sistema de “República Cooperativa Nacional”, no qual as grandes corporações cooperativas responderiam pela gestão do território. A gestão desses novos espaços se daria na forma de incremento do sistema cooperativo, focado na manutenção da grande propriedade, mecanização agrícola, uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes produzidos a partir de petróleo e de outros insumos artificiais. Toda a produção voltar-se-ia à exportação para “manter a saúde da economia dos negócios” e em benefício dos envolvidos.

A agroindústria assumiria o papel de integrar as diferentes representações setoriais, dominando e norteando todas as demais atividades econômicas na indústria e no ramo de serviços, todos atrelados ao norteador estratégico dos interesses do agronegócio. E como medida de cunho cultural, com o objetivo de garantir maior reconhecimento aos verdadeiros símbolos da nação, a soja, o pinus, eucalipto e o gado nelore passariam ser identificados como símbolos nacionais.

Por fim, o presidente do “agro é tudo” agradeceria o apoio fundamental do Congresso Nacional e das grandes corporações cooperativas privadas, prometendo amparar mais e mais as subvenções e ajutórios com recursos públicos para manter forte a atividade produtiva soberana. Nessa gestão, todas as regalias que incrementam a legislação do país estariam cada vez mais voltadas a dar lastro e segurança ao agronegócio. Em meio ao cenário catastrófico, mas aparentemente cada dia mais próximo, só restaria clamar: que Deus nos ajude.

 

Juliano Dobis é engenheiro Agrônomo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) com especialização em Gestão dos Recursos Naturais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e quase uma década de atuação no terceiro setor, com foco em conservação da natureza.