Potencial turístico do litoral do Paraná é imenso e ainda pouco valorizado e aproveitado

Costa paranaense tem várias possibilidades de turismo de natureza e aventura

quarta-feira, 26 de fevereiro 2020

Deixe um comentário
Download PDF

Se você gosta de aproveitar a praia para relaxar na areia, pegar sol,  ou se aventurar em esportes divertidos e radicais, embarque nesta reportagem e já reserve um tempo para aproveitar as singularidades do litoral do Paraná! Muitos roteiros e aventuras esperam por você.

Na região há uma enorme área de Mata Atlântica ainda preservada, rios de águas cristalinas, cachoeiras e muitas opções de passeios. A localidade abriga alguns dos melhores pontos para observação de aves e animais da América do Sul, incontáveis trilhas pela floresta tropical que podem ser feitas a pé ou de bicicleta e locais perfeitos para a prática de montanhismo.

O litoral do Paraná abriga, também, impressionante diversidade de paisagens, com fauna e flora riquíssimas, além de visuais incríveis com praias, ilhas e baías, que podem proporcionar ao viajante experiências únicas e inesquecíveis em meio à natureza.

Veja algumas sugestões:

A Corredeira do Cadeado é o ponto mais crítico da descida. Crédito: Guilherme Cezarino de Oliveira.

Rafting

O rio “Cachoeira”, em Antonina, é perfeito para a prática de rafting, esporte de descida em corredeiras em equipe, utilizando botes infláveis. O esporte de aventura oferece muita adrenalina em quatro quilômetros de percurso. Durante a descida, são feitas duas paradas para nadar e relaxar nas piscinas naturais do rio. Dezenas de cachoeiras formam pedaços inesquecíveis de um paraíso de águas limpas e cristalinas.

Guilherme Cezarino de Oliveira cresceu na região próxima ao rio, sempre acompanhando grupos de turistas com o pai que atua na área há mais de 20 anos. Apaixonado pela região, Guilherme trabalha atualmente na empresa da família, a OFC Rafting, e conhece as corredeiras muito bem. Ele explica que o acesso ao rio é feito por uma vila pacata do Bairro Alto, no meio da Mata Atlântica, perto da Usina Pedro Parigot de Souza.

“A região é preservada e isso mantém a água muito limpa. Em alguns pontos é possível surfar com o bote na corredeira. O percurso dentro do rio dura uma hora e meia, no mínimo. De 1 a 6, classificamos o nível de dificuldade do Rio Cachoeira em 3. Mas para quem gosta de mais adrenalina, tem um trecho que é opcional, com Grau 4, onde há uma corredeira mais forte, cercada de pedras, a “Corredeira do Cadeado”. Para descidas mais tranquilas fazemos um desvio pela mata. No fim da aventura, o grupo é tra- zido de volta até a base de caminhonete”, diz Guilherme.

Quando chove, o rio enche e as correntezas ficam mais fortes, então, é preciso remar mais para não virar o bote. É difícil alguém se machucar nas pedras, mas, para evitar imprevistos, é importante seguir as instruções dos guias. Além dos remos, são fornecidos coletes salva-vidas, capacetes de segurança e um instrutor experiente no comando de cada bote. O rafting é indicado apenas para crianças acima dos seis anos, a depender também das condições do rio. E não há limite de idade! Guilherme conta que já levou um senhor de 85 anos no bote.

Desde criança Guilherme Cezarino (na frente à direita)

“Foi o senhor mais velho a descer até hoje com a gente. Ele queria experimentar e a filha dele entrou em contato com a agência. Então, descemos com dois guias dentro do bote para dar um suporte. Em caso de crianças, temos uma enfermeira que mora na região e desce com a gente pela margem em um carro de apoio. Isso para caso de torções, arranhões ou outra lesão. Nunca aconteceu nada sério, mas a gente conhece e não abusa do rio. Temos toda preocupação com a segurança”. O custo médio do rafting é de R$ 60 por pessoa.

O guia explica que está incluído no valor um seguro de atividade para casos de possíveis acidentes, e recomenda usar calçado fechado, levar roupa para trocar, toalha de banho, repelente e protetor solar.

Canoagem e Boia Cross

Você também pode curtir uma descida fantástica de caiaque pelo Rio Nhundiaquara, em Morretes, que inclui piscinas naturais, corredeiras, pássaros, florestas e muita Mata Atlântica para ser apreciada nas paisagens de montanhas. Há opção, também, de descida de boia, um passeio já tradicional da Serra do Mar, que possibilita momentos de relaxamento, descontração e contemplação. Pousadas e agências da região oferecem os passeios e o aluguel dos equipamentos.

Montanhismo

A melhor época para a prática do montanhismo é o inverno. Chove menos e as trilhas não estão tão escorregadias. Com a temperatura amena, a atividade fica mais prazerosa e o rendimento físico é melhor. Subir montanha e atravessar uma floresta com temperaturas acima dos 30 graus não é recomendado.

O Parque Estadual do Pico do Marumbi já é bastante conhecido como ponto de encontro de montanhistas, trilheiros e aventureiros. É o ícone do montanhismo no Brasil. A ferrovia centenária Curitiba-Paranaguá tem uma estação dentro da unidade de conservação que integra também o Mosaico de Lagamar, uma importante unidade de conservação da costa sul do Brasil, que abriga uma cadeia de montanhas e biodiversidade riquíssima.

Além do consagrado Marumbi, outro ponto fantástico do litoral do Paraná para praticar montanhismo é o Parque Nacional Saint Hillare Langue, que abrange os municípios de Matinhos, Guaratuba, Morretes e Paranaguá. Ocupa um trecho da Serra do Mar, conhecido como “Serra da Prata”. A trilha que leva ao cume da “Torre da Prata” é uma das mais belas do litoral do Paraná, marcada por árvores majestosas e seus troncos imponentes. Na subida é possível observar diferentes espécies de aves até chegar aos Campos de Altitude. No topo, o visitante tem uma vista 360 graus: de um lado vê o Pico do Marumbi, o Pico Paraná e a Serra da Graciosa. Do outro, é possível avistar Curitiba de longe.

“Na trilha do parque pegamos um trecho de Mata Atlântica bastante preservado, com espécies da flora, árvores de grande porte, pássaros e, com sorte, vemos macacos, tucanos, jacutingas e outras aves maiores. A Torre da Prata é a montanha que está mais perto do oceano, tem um visual panorâmico do mar fantástico e é possível ver lá embaixo todas as praias do litoral, a Baía de Paranaguá e a Ilha do Mel”, detalha o turismólogo Luis Celso Maceno Filho.

Luis Celso faz parte da Calango Expedições e é condutor de turismo de aventura há duas décadas na Serra do Mar. Montanhista e escalador experiente, ele explica que a subida na Torre da Prata pode ser feita, ida e volta, em um dia inteiro, com caminhada intensa e pesada. O grau de dificuldade é maior. Há opção de pernoitar no alto da montanha e descer no dia seguinte. Com isso, o visitante aproveita o pôr-do-sol e a noite estrelada. Ele também indica fazer o passeio no inverno, evitando, com isso, as chuvas de verão.

“A Faixa etária mínima é de 14 anos, pelo fato de ser um roteiro difícil e mais pesado, sempre acompanhado dos pais ou responsáveis. Quanto ao limite máximo de idade, ele é muito relativo. Depende da condição física, do preparo, do grau de experiência, e de quais atividades a pessoa prática regularmente. Nós fazemos uma pré-entrevista para entender a experiência do interessado para adequar um roteiro que seja tranquilo a cada pessoa, respeitando os limites físicos individuais. Tem um pessoal de mais idade que pega firme no montanhismo”, conta Luis Celso.

O custo para um dia de passeio é de R$ 250, com saída de Morretes. Para dois dias, contando o aluguel do equipamento para acampar, a atividade sai por R$ 600 por pessoa. Esse valor inclui guia, jantar e café da manhã na montanha.

O bate-volta no mesmo dia é puxado até para quem já é mon- tanhista com experiência. O passeio pela Serra da Prata não é recomendado para sedentários. Nesses casos, é melhor optar por roteiros que incluem caminhadas de nível leve e moderado.

26 de fevereiro

Caminhada leve

Uma opção de trilha bem light é o Parque Estadual do Pau Oco, onde o principal atrativo é o Salto da Fortuna. A caminhada, sem subidas íngremes, leva uma hora de ida e uma de volta. É um atrativo para qualquer perfil de pessoa, a partir dos 6 anos de idade. “Para o Salto da Fortuna, a trilha no meio da mata fechada é fantástica e bastante plana com espécies da flora muito preservadas. Rios cortam a serra e cruzam a trilha num visual muito bonito”, completa Luis.

Normalmente, o passeio sai pela manhã, depois do café das pousadas. O custo de R$ 150 inclui translado de 12 km pela estrada rural, guia e seguro preventivo.

Após caminhada na mata densa, é possível tomar um banho no Salto da For tuna. Crédito: Priscilla Forone.

Escalada em rocha

Na Serra do Mar, no balneário de Caiobá e na Ilha do Mel, existem ótimos locais para escalada, com paredões de pedras e algumas vias esportivas. A prática costuma ser mais restrita pelo risco que oferece e a necessidade de técnica e equipamentos específicos. Escalada em rocha, normalmente, está fora do catálogo das agências de turismo, porque atende a um público de interesse mais especializado e o atendimento para escaladores é individualizado. A dica é procurar um clube de montanhismo ou empresa especializada que podem indicar as melhores montanhas e oferecer guias profissionais, combinando quantidade de dias e o grau de dificuldade para escolha de montanha ou paredão.

 

Cicloturismo

Na Ilha do Mel, nos balneários e perto das montanhas, é possível alugar bicicletas para passeios em agências, pousadas e até em lanchonetes. Muitos turistas aproveitam a região litorânea em grandes ou pequenos circuitos em duas rodas. O cicloturismo é democrático e barato e, por isso, é possível, em grupos ou individualmente, conhecer os quilômetros de praias.

Já existe um roteiro consolidado entre ciclistas profissionais e amadores de descida da Serra pela Estrada da Graciosa e pela BR-277. A cada ano, a aventura atrai mais pessoas que costumam retornar de van ou com carros próprios.

O corretor de seguros Jeferson Araújo quis fugir do agito de Curitiba e, em busca de qualidade de vida, montou uma locadora de bicicletas em Porto de Cima, distrito de Morretes. Desde 2015, a Marumbike atende grupos de turistas dispostos a passear pela costa.

“O passeio pela natureza começa pelo Rio Nhundiaquara perto de um ponto de boia cross. Os turistas percorrem seis quilômetros de trilhas até a cidade de Morretes, avistando as montanhas do Marumbi. Eles vão sem guia e podem pedalar pelo litoral, ver as cachoeiras, visitar a cidade turística, conhecer a Igreja Matriz e experimentar o roteiro gastronômico da região que, além

do Barreado, conta com outras várias outras delícias. Eu mesmo aproveito o espaço da locadora de bikes para vender produtos regionais e artesanais como cachaça, bala de banana, biscoito de polvilho, farinha de mandioca e licores”, diz Jeferson.

Desse passeio, dois quilômetros fazem parte do Caminho de Itupava, trilha histórica aberta entre 1625 e 1654 por indígenas e mineradores. A pedalada entre montanhas e rios rende uma viagem no tempo, além de mergulhos revigorantes e ótimas fotografias.

Jeferson conta que a trilha é muito procurada por paranaenses, mas também passam por ela paulistas, goianos, catarinenses, gaúchos e muito estrangeiro para conhecer. “Esse pessoal gosta muito de montanha, caminhada, cachoeira e ecoturismo. É o que a gente acredita que precisa ser o futuro do turismo no litoral do Paraná. Vejo um futuro promissor a médio prazo porque, hoje, as pessoas estão muito ligadas no turismo de natureza. Já existem aqui várias pousadas e o pessoal vem nadar, pedalar e caminhar. Há espaço para muitos tipos de passeio”, completa Jeferson.

O aluguel de bicicletas custa R$ 15 por hora ou R$ 70 a diária. O preço acompanha um visual belíssimo para cada lado que se olhe.

 

Observação de Pássaros, ou birdwatching

Cada vez mais, o Parque Nacional de Superagui, em Guaraqueçaba, é procurado por viajantes que gostam de observar pássaros e outros animais marinhos. Superagui foi declarado pela ONU como reserva da Biosfera e Patrimônio Natural, por ter um dos ecossistemas costeiros mais ricos do planeta e uma das maiores áreas de florestas cobertas do Paraná (ICMBIO, 2012), cenário perfeito para a prática de “birdwatching”, ou “observação de pássaros”.

O turismólogo Carlos Augusto Cornelsen é consultor do Sebrae-PR desde 1995 e mantém contato profundo com a realida- de do turismo no litoral. Ele conta que a costa e as baías paranaenses são perfeitas para a atividade:

“Temos um movimento de birdwatching muito forte em Superagui e Antonina. São pessoas que, além de contemplar, buscam interagir com a natureza, saber mais sobre as aves, os animais que estão ali e ter contato com a comunidade e a cultural local. Esse tipo de ecoturismo também fortalece o turismo náutico, com uso de pequenas a grandes embarcações para os passeios pela costa. Apesar de o nosso litoral ser pequeno, o recorte da Baía de Paranaguá é imenso. Então, temos muita gente percorrendo essa área para passear e velejar.”

Cornelsen explica que para contratar um passeio náutico, é possível procurar as associações dos barqueiros e fechar o serviço diretamente em Pontal do Sul e Paranaguá. Desses pontos, partem roteiros para várias ilhas e baías, passando pelos melhores locais para observação.

A bióloga Elenise Sipinski, que coordena o projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, a SPVS, reforça que o potencial no litoral é privilegiado por sua diversidade gigante de aves:

“Você tem oportunidade de ver aves belíssimas, como o tiê sangue, beija flores, arapaçus, tucanos o próprio guará, que é uma ave que desapareceu e voltou recentemente para nosso litoral. Quanto ao papagaio-de-cara-roxa, na Ilha da Cotinga, região de Pontal do Paraná, há dois dormitórios importantes muito dessa espécie. Uma super oportunidade para os moradores usarem isso como uma forma de oportunidade para geração de renda. Existem colecionadores de observação de aves que vêm do mundo inteiro para encontrar essas espécies endêmicas, ou seja, que só existem aqui. Eles colecionam fotografias e têm metas para avistar espécies específicas de cada região”.

Elenise orienta que os melhores horários para o birdwatching é ao amanhecer e ao anoitecer, quando a atividade das aves é maior. Ela sugere identificar na região algum guia ou morador que conheça e goste das espécies, assim, ele poderá passar aos visitantes informações e histórias interessantes e curiosas sobre cada espécie. Elenise recomenda levar um binóculo e usar aplicativos para identificação das espécies. Durante o passeio, é importante que se use roupas escuras ou de cores que camuflem na floresta. Para ela, a exploração turística é aliada da preservação.

“A revoada do papagaio-da-cara-roxa é possível de se ver na Ilha do Mel, na Ilha da Cotinga e na Ilha do Pinheiro, que faz parte do Parque Nacional do Superagui. São locais fortes de observação. O ideal é pegar alguém da comunidade para valorizar esse saber, a cultura local, e, claro, aprender mais”, finaliza a bióloga.

Crédito: Fabiano Cecilio

Para ler mais notícias da edição 1 do Jornal Justiça e Conservação, clique aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *