Lobo-guará é fotografado na APA da Escarpa Devoniana

Projeto de lei que pretende reduzir perímetro da área ameaça a espécie, que pode desaparecer do Paraná

sábado, 04 de março 2017

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Lobo-guará registrado na área da APA da Escarpa_Romulo Cícero da Silva
Lobo-guará fotografafo na área da APA da Escarpa Devoniana_Romulo Cícero da Silva

Correndo risco de extinção, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é a maior espécie de canídeo da América do Sul. Animal símbolo do Cerrado, ele é encontrado, mesmo que em menor quantidade, em regiões do Pantanal, da Caatinga, em áreas de Campos Naturais da Mata Atlântica e está quase extinto dos Pampas gaúchos.

O registro raro de um exemplar da espécie em Tibagi, na região dos Campos Gerais, mostra que o lobo tem resistido à substituição de seu hábitat natural por plantações de espécies exóticas.

O mamífero foi fotografado no feriado de Carnaval, dia 28 de fevereiro, dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana, que concentra importantes remanescentes de Floresta com Araucária e Campos Naturais.

A APA pode perder até 70% de sua área, caso seja aprovado um projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa do Paraná. O PL 527/2016 prevê a retirada de 2,6 mil quilômetros quadrados da APA da Escarpa Devoniana. Uma audiência pública marcada para o dia 10 de março, em Ponta Grossa, vai discutir a alteração dos limites do território.

Especialistas acreditam que a redução da área vai agravar o processo de degradação da biodiversidade nativa da escarpa e de seu entorno, colocando em risco muitas espécies de plantas e animais, como o lobo-guará. “O registro em Tibagi evidencia a necessidade de ações imediatas para a conservação e restauração dos Campos Naturais e Floresta com Araucárias”, defende o técnico da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Romulo Silva, responsável pelo registro. Para ele, “só o fortalecimento das Unidades de Conservação dos Campos Gerais pode viabilizar a manutenção de populações saudáveis da espécie”.

Ameaça ao patrimônio natural

Estrutura geológica que corta o estado do Paraná e divide o primeiro e o segundo planaltos do estado, a Escarpa Devoniana abriga importantes remanescentes de Floresta com Araucária e Campos Naturais, dois ecossistemas associados a Mata Atlântica, além de áreas com afloramentos rochosos, como o Canyon do Guartelá e o Buraco do Padre. As rochas que sustentam a escarpa formaram-se há 400 milhões de anos, no período Devoniano.

Para proteger a diversidade biológica e geológica da região, foi criada, em 1992, a Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana. Originalmente com 3.920 km², a área começa na Lapa (PR) e se estende até a divisa com o estado de São Paulo, passando por 12 municípios paranaenses. Nove parques naturais estão dentro da APA.

O Projeto de Lei 527/2016, protocolado na Assembleia Legislativa do Paraná em novembro do ano passado, propõe a revisão do território da área de proteção.

O diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clóvis Borges, lembra que a APA permite que sejam praticadas em seu interior atividades agropecuárias, desde que respeitados o plano de manejo e a legislação vigente. “A APA é uma porção especial do Paraná e merece cuidados mínimos”.

Se aprovada, a redução do território da área é mais um duro golpe na conservação da biodiversidade da região. Um levantamento realizado pelo Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa (LAMA/UEPG) indica que a APA da escarpa já perdeu quase metade da cobertura vegetal nativa desde sua criação, há 25 anos.

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