Berçário marinho, litoral é refúgio de animais raros e ameaçados de extinção

Sobrevivência das espécies depende da preservação de restingas, áreas ver- des e manguezais do litoral do Paraná

terça-feira, 24 de março 2020

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Mantas do Brasil. Crédito: Leo Francini

A costa paranaense é uma das menores do país, com apenas 102 quilômetros de extensão, mas é uma das áreas mais importantes da costa brasileira quando o assunto é biodiversidade. No litoral do Paraná, estão áreas extremamente conservadas e exuberantes da Mata Atlântica e riquíssimos ecossistemas marinhos de manguezais e restingas. Há extensas praias arenosas e planícies de maré, áreas rochosas e ilhas costeiras e importantes baías hidrográficas.

A região abriga diversas espécies de fauna e flora, além daquelas migratórias que, de tempos em tempos, encontram no litoral paranaense refúgio para a reprodução, recuperação de forças durante a migração ou para a alimentação. Essas características conferem ao litoral paranaense a classificação de “área prioritária para a conservação e de extrema importância” para a diversidade brasileira, conforme a Portaria MMA 126/2004.

A bióloga e pesquisadora Camila Domit é responsável pelo Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e monitora populações de mamíferos, aves, tartarugas marinhas, tubarões e raias para ações de planejamento para a conservação. Ela ressalta que o Paraná é uma área extremamente importante, considerada, tanto nas avaliações do Ministério do Meio Ambiente quanto em avaliações internacionais, como de grande relevância para conservação da biodiversidade marinha e costeira mundial.

“O golfinho boto-cinza habita a região ao longo de todo ano para se reproduzir, cuidar dos filhotes e esperar o desenvolvimento deles. O tubarão-martelo também vem à região pelo mesmo motivo. As tartarugas verdes jovens são muito comuns por aqui e algumas espécies de aves utilizam a área para reprodução, como as fragatas e o atobás. Diversos peixes e crustáceos, como caranguejos, também usam regiões estuarinas e baías para reprodução. Um bom exemplo bastante conhecido na região é a tainha, que ocupa o litoral do Paraná pelo mesmo motivo. Por essa grande relevância para as espécies, que chamamos essa área de berçário”, explica Camila.

Camila Domit com crianças e tartarugas

 

Unidades de Conservação

Unidades de Conservação Marinhas são a principal ferramenta de proteção e manutenção de espécies marinhas, principalmente, as ameaçadas. No Paraná, existem cinco Unidades de Conservação identificadas como “marinho costeiro”, sendo duas de uso sustentável (a APA de Guaraqueçaba, e a APA de Guaratuba) e três de proteção integral (Estação Ecológica de Guaraqueçaba, o Parque Nacional de Superagui, e o Parque Estadual da Ilha do Mel). Apenas o Parque Nacional dos Currais representa uma unidade de conservação exclusivamente marinha.

Para Juliano Dobis, diretor da Associação MarBrasil e especialista em Gestão dos Recursos Naturais, a conservação marinha apresenta desafios maiores do que a conservação terrestre, porque é preciso considerar não apenas áreas protegidas pelas Unidades de Conservação, mas tudo o que existe em volta, suas conexões, fluxos e usos.

“Sem as unidades de conservação marinha, e tirando algumas legislações, principalmente relacionadas às atividades pesqueiras, haveria a sensação de que todo mar pode ser explorado, para os mais diversos fins e de qualquer forma. A partir do momento em que as unidades de conservação são criadas, as de uso sustentável contribuem com um zoneamento e ordenamento de uso da área em busca de um uso sustentável dos recursos naturais. Já as de proteção integral, garantem que habitats importantes para a reprodução, alimentação e abrigo das espécies marinhas sejam protegidos e contribuam com a sua proteção”, esclarece Juliano.

Preservar e manter essa riqueza é fundamental para o desenvolvimento econômico e social do Paraná. O corredor ecológico marinho é fonte de renda para cerca de cinco mil pescadores artesanais e abriga diversas espécies ameaçadas de extinção. O diretor da Associação Mar Brasil explica que as unidades de conservação estão inseridas dentro da indústria do turismo, em especial, o turismo de natureza, que cresce muito acima da média em relação a outros ramos do turismo. As unidades de conservação, portanto, têm muito potencial para gerar emprego e renda pelo turismo.

“As unidades de conservação marinhas podem proteger espécies de valor comercial para a pesca, aumentando a produção pesqueira. Quanto ao aspecto social, a partir do momento que contribuem com a pesca, principalmente a artesanal, que é característica no Paraná, elas podem somar com a manutenção da atividade pesqueira artesanal e, consequentemente, com a história e a cultura da região”, completa o especialista.

 

Espécies encontradas no Paraná

Nem todos os animais que vivem ou circulam pelo litoral paranaense são conhecidos, principalmente, as espécies que vivem em áreas mais profundas e escuras, onde os estudos são mais raros e esparsos. Com o impacto ambiental e humano, muitas podem desaparecer antes mesmo de serem estudadas. E algumas, já bastante conhecidas, estão sob grave ameaça.

A pesquisadora Natascha Wosnick, do Departamento de Zoologia da UFPR, estuda espécies de raias e tubarões no litoral e enfatiza que a poluição e o tráfego marítimo intenso são ameaças ainda maiores do que a pesca. Para a bióloga e doutora em Zoologia, o maior motivo de preocupação atual é a iminente construção de um novo complexo portuário na região. Ele não só afetaria a qualidade de vida dos animais que vivem na região, como também comprometeria a saúde do ecossistema como um todo.

“O Porto de Pontal está planejado para ser instalado em um local de grande importância para espécies ameaçadas de extinção, tais como as raias-viola, os tubarões-martelo e também os cações-anjo, uma espécie de tubarão achatado como uma raia que está criticamente ameaçado de extinção em nível mundial. A região no entorno na construção é utilizada não apenas como área de repouso e alimentação dessas espécies, mas também como área berçário, o que significa que muitos neonatos e juvenis (indivíduos sexualmente inativos) se agregam e passam parte significativa de suas vidas nessa região. As taxas de mortalidade natural de indivíduos jovens podem chegar a 90%, o que, aliado à pressão pesqueira, poluição e degradação de habitat, pode ocasionar à extinção de algumas espécies”, diz ela.

A bióloga alerta também para o risco de aumento de ataques contra humanos na região, como o que aconteceu em Recife, após a construção do Porto de Suape. “O complexo foi construído na desembocadura de um estuário de grande importância para tubarões-tigre e tubarões-cabeça-chata. Aliado à degradação ambiental causada pelo porto, a dinâmica de correntes da região amplificou os riscos na região. Isso ocorreu porque os navios de carga tendem a atrair tubarões por motivos ainda desconhecidos (provavelmente, pela baixa frequência de funcionamento do motor  – tubarões possuem um sistema sensorial de eletro percepção), fato que acaba por aproximar esses animais das áreas de praia utilizadas por banhistas. Existem evidências na literatura que essa possibilidade existe, por isso, é necessário considerar tal possibi- lidade na implementação de um porto tão próximo à locais de uso recreativo”, defende Natasha.

 

Conheça alguns desses animais impressionantes!

 

Mero, o  senhor das pedras

Crédito: Robin Hilbert Loose

O litoral do PR abriga um gigante dos mares, o Mero, um enorme peixe gentil, que permite a aproximação humana e, por isso, se torna alvo fácil de caçadores do mar. Esses peixes podem ultrapassar 400 quilos e viver 40 anos. Eles habitam recifes e embarcações naufragadas. Atualmente, a espécie está classificada como “vulnerável” à extinção no mundo. A mor- te em alta escala do Mero ameaça todo o ecossistema marítimo, pois o “Senhor das Pedras”, como também é chamado, está no topo da cadeia como predador. Se alimenta de peixes, moluscos e crustáceos e sua dieta controla a população de várias espécies.

 

Tartarugas-verdes

Crédito: Robin Hilbert Loose

A tartaruga marinha é uma das espécies mais antigas do planeta e, durante sua longa jornada, leva e traz toneladas de nutrientes e energia vital à sobrevivência de diversas formas de vida. Uma infinidade de peixes, crustáceos, moluscos, esponjas, medusas dependem da existência das tartarugas marinhas, que são peças chave para a conservação dos oceanos. No mundo são conhecidas sete espécies. O litoral do Paraná representa uma importante área para o ciclo de vida das tartarugas-verdes. Os principais locais de ocorrência são a Ilha do Mel e a Ilha das Cobras, os manguezais de Paranaguá e os costões rochosos de Matinhos e Guaratuba. Algumas moram na costa paranaense e outras passam pela região em processos migratórios.

 

Raia-manta

Crédito: Leo Francini

O litoral do PR é um importante local de avista- mento sazonal da Raia-manta, a maior raia marinha do mundo, podendo chegar a três toneladas e a mais de nove metros de largura. Durante a primavera e o verão, a espécie pode ser vista dando saltos para fora da água na região do Complexo Estuarino de Paranaguá e interagindo com botos-cinza. As espécies de raias que frequentam a costa paranaense se alimentam de organismos doentes e animais senis, garantindo, assim, a qualidade das populações de peixes e outros animais marinhos de interesse comercial. Além disso, fazem parte da dieta de alguns predadores de topo de cadeia, como é o caso dos tubarões.

 

Tubarões-martelo

Duas espécies de tubarões-martelo são comuns no Paraná: o Sphyrna lewini, conhecido pelos pescadores como “cambeva branca” (tubarão-martelo-recortado) e o Shyrna zygaena, ou cambeva negra (tubarão-martelo-liso). Ambas estão ameaçadas de extinção e na lista de espécies com comercializa- ção proibida. O Paraná é área de parto e berçário para essas espécies. Os tubarões, principalmente as fêmeas e os filhotes, nadam juntos e ficam muito próximos à costa, o que os torna vulneráveis à captura comercial. São espécies que também sofrem pressão da pesca esportiva. Apesar da fama de predadores perigosos, eles têm bocas muito pequenas, o que os leva a consumir presas de menor porte. Apresentam pouco risco aos humanos. Muito raramente são envolvidos em incidentes com banhistas, surfistas ou mergulhadores.

Crédito Noeli Ribeiro

 

Uso de recifes artificiais aumenta a biodiversidade marinha

O Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), da Associação MarBrasil, estuda os habitats e o ciclo de vida dos animais marinhos. Ele mapeou os recursos pesqueiros, as espécies ameaçadas e os corredores migratórios para buscar alternativas tecnológicas e sustentáveis para a preservação das espécies.

O uso de Recifes Artificiais é uma importante ferramenta nesse esforço. Eles são instalados em locais estratégicos para recuperar a biodiversidade marinha e aumentar a quantidade de peixes. A iniciativa beneficia tanto pescadores artesanais quanto os ecossistemas.

O REBIMAR começou em 2008, a partir da emissão da primeira licença do IBAMA para a instalação de Recifes Artificiais no litoral paranaense. Hoje, 11 anos depois do início, ainda é o único projeto a obter essa licença, obrigatória para projetos de instalação de recifes artificiais em todo o Brasil. Desde 2010, o programa Petrobras Socioambiental patrocina o projeto.

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